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Posted by on out 8, 2013 in Ciência, Pesquisa, Pesquisa Social, Pnad | 0 comments

Transformações sociais (Valor Econômico, em 08.10.2013)

BRASÍLIA, 

Por Marcelo Côrtes Neri

A Pnad nos permite traçar um retrato amplo das mudanças observadas na vida dos brasileiros no ano que passou. Os microdados tornados públicos pelo IBGE simultaneamente com análises e tabulações feitas pela equipe do instituto, permitem a qualquer um replicá-las e desenvolver suas análises. Em 2012, pleno ano do pibinho, a renda real per capita da Pnad deflacionada pelo INPC cresceu 7,98%. Trata-se portanto de crescimento acima da inflação. A importância de complementarmos a análise de crescimento proporcionada pelas contas nacionais com outra baseada em pesquisas domiciliares, tipo Pnad, é a primeira recomendação da comissão de notáveis, comandada pelos ganhadores do Nobel Joseph Stiglitz e Amartaya Sen, sobre como medir o progresso das nações.

Na grande maioria dos países o PIB cresce mais que as pesquisas domiciliares, no Brasil tem ocorrido o oposto nos últimos 9 anos com crescimento dos primeiros 22,8% pontos de porcentagem abaixo dos últimos enquanto o deflator implícito do PIB cresce 22,9% acima do IPCA. Ou seja há equivalência nas séries nominais. É o deflator, companheiro!

Sabemos exatamente o que os preços ao consumidor medem e que há um viés dele para cima por não incorporar a possibilidade de substituição de bens que ficaram relativamente mais caros. Nos EUA esse viés tem correspondido a 0,25 pontos percentuais por ano numa inflação a menos 2 pontos por ano em 2012.

Se o trabalho foi o protagonista da queda de desigualdade, o Bolsa Família merece o Oscar de melhor coadjuvante.

A Pnad permite olhar para a distribuição dos frutos do crescimento entre brasileiros. No acumulado do período 2003 a 2012, o crescimento do brasileiro médio da Pnad é quase duas vezes maior que o PIB per capita. O brasileiro mediano, o João da Silva, cresce quase três vezes mais e o primo pobre dele que está nos 10% com menos renda, cresceu quatro vezes mais. Dependendo do que e de quem se olha, a resposta muda. Como na peça de Pirandello: assim é se assim lhe parece.

Em 2012, o maior crescimento foi o dos 10% mais pobres, cuja renda cresceu 14%. Os 10% mais ricos obtiveram crescimento de 8,3%. Os 40% mais pobres, de 9,9%. Se a população for dividida em frações menores, a renda dos 5% mais ricos cresceu 9,4% e a do 1% mais rico cresceu 16,1%, mas a dos 5% mais pobres cresceu 20,1%.

A desigualdade segundo o índice de Gini ficou parada em 0,526. Medidas de desigualdade mais sensíveis à cauda, como o índice L de Theil, caíram mais que o Gini, mas menos que nos 10 anos anteriores. Há muitas maneiras da desigualdade ficar estável, uma é todos melhorarem (ou piorarem) juntos. No ano passado, as mudanças de renda favoreceram a todos, mas em especial aos mais ricos e aos mais pobres dos pobres. O crescimento observado na metade inferior da distribuição de renda, décimo a décimo, supera o crescimento da média. Apesar da estabilidade do Gini, as mudanças distributivas foram particularmente favoráveis aos pobres, explicando metade da redução da extrema pobreza de 15,9% ocorrida em 2012, 5 vezes mais rápida que nas metas do milênio

Quase ¾ do avanço de renda registrado pela Pnad se deve a expansão do mercado de trabalho, que cresceu em termos per capita 7,6% em 2012. Fundamentalmente, é uma economia em que o mercado de trabalho está descolado do crescimento do PIB, dois Brasis distintos. A análise de rendimentos individuais nos permite entender em detalhe micro a transformação trabalhista. Do lado da quantidade de trabalho, a queda do desemprego explica 10% do ganho de renda do trabalho e a participação, leia-se oferta de trabalho, explica zero. O “efeito-salário” responsável pelos 90% restantes pode ser decomposto em aumento da escolaridade, de 46,6%, e valorização de salário (descontada a escolaridade) de 43,4%. A valorização salarial é o elemento que se destaca em relação aos períodos anteriores.

O ganho educacional entre os ocupados foi o mais forte nas duas últimas décadas, após dois anos fracos. Apesar da estagnação do analfabetismo após biênio forte, a desigualdade de escolaridade medida pelo Gini tem em 2012 queda duas vezes maior que em qualquer ano da série Pnad. O analfabetismo tem sido um mau previsor da distribuição da educação como um todo.

O crescimento de 20,1% na renda real dos 5% mais pobres talvez seja a evidência mais clara dos impactos do Bolsa Família. O programa, que completa em outubro de 2013 sua primeira década, teve impacto fundamental nesse período, explicando 12% da queda da desigualdade, contra 55% da renda do trabalho, 11,4% da renda da previdência acima do piso, e 9,4% do piso previdenciário vinculado ao salário mínimo. Cada real adicional gasto no Bolsa Família impactou a desigualdade 369% mais do que na previdência social, como um todo. Se o trabalho foi o protagonista da queda de desigualdade, o Bolsa Família mereceria o Oscar de melhor coadjuvante.

Os avanços incluem o acesso a serviços públicos essenciais e bens de consumo duráveis. O percentual de pessoas que tiveram acesso simultaneamente a energia elétrica, coleta de lixo, esgotamento sanitário adequado e rede geral de água aumentou 1% em 2012, atingindo o universo de 59,2% da população. Da mesma forma, aumentou 2,2% a população com o “combo” telefone, TV a cores, fogão, geladeira, rádio e máquina de lavar, que alcançou 46,6% das pessoas em 2012. No período de 1992 a 2012, a população que teve acesso a serviços públicos essenciais e a bens duráveis básicos aumentou 18,6% e 35,5%, respectivamente. As condições privadas de vida das famílias avançaram mais que a provisão de serviços públicos essenciais por parte do Estado. Há muito por fazer na cobertura e qualidade de serviços públicos em geral, mais quando o crescimento de consumo e trabalho pressiona a infraestrutura existente.

Em suma, fora a estabilidade da desigualdade, 2012 foi um ano de colheita de resultados melhor que a média das duas décadas anteriores, tomadas de forma conjunta ou isoladas. Falo de quesitos como crescimento, pobreza, trabalho, educação e acesso a bens privados e a serviços públicos.

Marcelo Côrtes Neri é ministro interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos; presidente do Ipea e professor da EPGE/FGV. Autor de “Microcrédito: o Mistério Nordestino e o Grameen Brasileiro” (FGV), “Cobertura Previdenciária: Diagnósticos e Propostas” (MPS) e “A Nova Classe Média”.

Fonte: http://www.sae.gov.br/site/?p=18450#ixzz2h8jVTeWc

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Posted by on set 3, 2013 in Pesquisa Social, Pnad | 0 comments

Primeira Página – Meio rural vive ‘debandada’ de mão de obra

Estudo feito pela FGV com base em dados da Pnad mostra que o aumento do salário mínimo
tem provocado a antecipação da aposentadoria e permitido a permanência das crianças e
adolescentes nas escolas em região dominada pela agropecuária. Segundo economistas, nem
mesmo a alta da inflação será capaz de reverter este quadro, revela Fernanda Nunes

Trabalhador rural longe do campo

Mão de obra agropecuária despencou, com a expansão do salário mínimo. Os mais velhos estão antecipando a aposentadoria e garantindo a permanência dos jovens na escola

Fernanda Nunes

O aumento da renda, proveniente da valorização do salário mínimo, mudou a estrutura do mercado de trabalho no meio rural, revela estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), divulgado com exclusividade ao Brasil Econômico. “Houve uma debandada da mão de obra. Um grupo expressivo está preferindo ficar em casa a ir para a lavoura”, destaca o economista Rodrigo Leandro de Moura.

A opção por não trabalhar na agropecuária não indica, contudo, transferência da mão de obra para as cidades e aumento da migração, como ocorreu na história recente da economia brasileira. Ao contrário do passado, os anos 2000 são marcados pela migração rural em patamar equivalente ao do período ainda de nascimento da industrialização, nos anos 50, embora, ressalte Moura, dessa vez, haja um contingente muito menor de trabalhadores instalados no campo.

A pesquisa do Ibre/FGV utiliza como base os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), relativo ao cenário de 2011. A divulgação mais atualizada sairá em setembro, quando o estudo será revisto. Mas, segundo o economista, as mudanças ocorridas no mercado de trabalho rural foram estruturais e permanecem.

Mesmo a inflação crescente neste ano não é capaz de reverter as transformações, porque o reajuste do salário mínimo, balisador da aposentadoria, supera a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e garante a manutenção dos ganhos adquiridos. “Ficaria muito surpreso se algo mudasse repentinamente. São fatores estruturais que, dificilmente, são revertidos de um ano para outro”, destaca Moraes.

Além disso, diz ele, o avanço expressivo do Produto Interno Bruto (PIB) do setor agropecuário no primeiro semestre deste ano indica queda da população ocupada nomeio rural e aumento da produtividade, retrato condizente como quadro assinalado pelo estudo do Ibre/FGV. A queda de 1,9% da população ocupada no campo, de 2004 a 2011, está relacionada a um movimento crescente de antecipação de aposentadorias, sobretudo, entre trabalhadores com menos escolaridade, de zero a sete anos de estudos.

A expansão do salário mínimo fez com que a renda média mensal decorrente da aposentadoria superasse à do trabalho, de 2004 a 2011— 5,08% ante 4,7%, respectivamente. A média da renda como trabalho é de R$ 490 e coma aposentadoria, de R$ 693. Com mais dinheiro para custear o orçamento, as famílias estão podendo deixar suas crianças e jovens de 10 a 17 anos permanecerem mais tempo na escola, em sistema de dedicação exclusiva, distantes da lavoura.

Soma- se à contribuição da aposentadoria, as melhores condições do acesso à escola, revela o estudo. A consequência imediata é a queda de 1,7% da taxa de participação da força de trabalho rural, no período. Ou seja, caiu o números de pessoas em idade para trabalhar que optaram por buscar emprego no campo, nos sete anos. E as mudanças pouco têm a ver com os programas sociais do governo, segundo o Ibre/FGV. Apenas 3,7% da queda taxa de participação da força de trabalho são relativas ao aumento real de benefícios sociais entre 2004 e 2011.

Daniela Rocha, que divide com Moura o estudo, salienta, contudo, que os produtores agrícolas estão compensando a redução da oferta de mão de obra com programas de qualificação dos trabalhadores para que operem máquinas, cada vez mais presentes no campo. Ela cita o caso dos produtores de cana-de-açúcar, que optaram por qualificar seu pessoal já empregado, em vez de contratar pessoal treinado.

A permanência dos jovens por mais tempo nas escolas também tende a contribuir para que o setor agropecuário mantenha o crescimento da produtividade, porque permitirá que uma fatia maior de estudantes alcance o segundo grau técnico especializado, de acordo com Daniela. Ainda assim, “há uma discussão muito grande sobre até que ponto a mão de obra rural consegue se adequar aos avanços tecnológicos.

O meu palpite é que há dificuldade de absorção do trabalhador”, ressalta Moura. Isso explica em parte a antecipação da aposentadoria por alguns. Sem conseguir espaço no mercado, eles buscam solução na previdência. Os cenários, na verdade, variam de acordo com as regiões do país. A carência por mão de obra é maior no Nordeste, enquanto o Centro-Oeste é favorecido pela migração do meio urbano para o rural, em decorrência dos resultados extraordinários dos mercados de soja, milho e pecuária.

A queda da população rural ocupada acaba por repercutir também sobre o mercado de trabalho urbano, diz Moura. “Um potencial menor de trabalhadores rurais tem suprido as cidades”, afirma. E a perspectiva é de manutenção deste quadro, ao menos no curto prazo. “A mudança é estrutural”, reforça o economista.

 

Fonte: Brasil Econômico

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